- Padre, perdoe-me, pois eu pequei.
A alma dele gelou. Padre Miguel já estava acostumado com as idas e vindas de Tales, um católico exímio, porém algo na voz dele havia mudado.
- Conte-me quais foram seus pecados meu filho.
- Padre, eu tentei, mas não resisti. A tentação foi grande, e mesmo com orações diretas ao Senhor eu não resistia, cada vez, mais e mais, eu me sentia fraco. Passei a freqüentar a Santa Reunião todos os dias, rezava sempre para o Senhor dar-me forças mas nada adiantou.
Lágrimas rolavam sobre a pele, um dia corada, hoje pálida, de Tales. Miguel se preocupou, a unica vez que viu Tales chorar fora quando seus pais haviam morrido, em uma acidente de transito, e mesmo assim, ele tinha 9 anos. Ele costumava dizer que as lágrimas são apenas para Deus em sua Santa Trinade, a latere Jesus i Espictus Santus, ao lado de Jesus e Espirto Santo. Algo começava a deixar o Padre curioso, e, logo que percebeu isso, lembrou que aquilo era uma confissão, e ele não poderia sentir isto. Fez o sinal da Cruz e esperou seu fiel voltar a falar.
- Padre, eu me apaixonei.
- Mas meu filho, isto não é pecado.
Tales respirou fundo, como se sentisse as palavras rasgar-lhe a garganta.
- É pecado quando se apaixonamos por um servo do Senhor.
Nesse momento, Miguel estava em suor. ‘Que diabos ocorre aqui?’ ele pensou. Ajeitou sua batina para ventilar um pouco mais seu pescoço, aproveitando que ninguém estava ali vendo. Até os servos mais próximos do Senhor na Terra tinham suas malandragens.
- Todos nós somos servos Dele, Tales. Todos.
- Mas Padre, eu me apaixonei por um que não deveria estar aqui. Não entendes o tamanho do meu pecado, Padre? Eu sei que tua alma é mais pura que a minha, Padre, mas mesmo assim, não consegue imaginar o tamanho do meu erro? Oh, Deus, por que tamanha pedra em meu caminho?
Tales estava debruçado pelos seus joelhos, molhados de lágrimas. Ele já gritava, baixo, em desespero. Sentia-se condenado, e sim, isso era o que ele era.
- Padre, me apaixonei por um anjo!
A janela que batia com o vento nesta madrugada chuvosa parou neste momento. Os pingos que batiam no banco da igreja cessaram. Nem mesmo a musica sacra que tocava ao fundo, para relaxar o Padre, tocava. Tudo havia parado. Tudo. Nada mais fazia sentido, e nem haveria de ter o por que de fazer. ‘Um anjo? Do Senhor?’. Miguel não conseguia pensar bem, o fato era muito pesado para a alma do Padre.
- Tales, você quer dizer que ela é bonita, como um anjo?
Miguel, confundindo desespero com nervosismo acerca do ceticismo do padre levantou e disse:
- Não Padre. Um anjo. De asas e aureola. Ela me apareceu em um sonho, dizendo que havia um futuro grandioso ao lado dela. Acordei, me sentindo melhor que nunca, como se tivesse ido ao Paraíso e voltado. Tomei um banho, e a água que caia em minhas costas não era gelada, devido a falta de energia em minha casa, como de costume. Não era fria, nem quente, Padre! Era simplesmente perfeita! Não resisti, e abri a torneira e a água também era assim. Era fim de noite já quando eu acordei, e fui ao mar. Padre, era perfeito. A Lua refletia nas águas calmas, fazendo um reflexo de asas, brancas. Me atirei ao mar, como uma criança. E padre, era perfeito. O ar que eu respirava não tinha o vicio da poeira, nem o cheiro de fumaça. A areia entre meus dedos não me encomodava, pelo contrário, me alegrava. Mergulhei, fundo, não queria nunca mais sair daquela situação.
Nesse momento, Tales não estava mais desesperado, parecia em ecstasy. E continuou a falar, com uma voz suave e doce.
- A alegria era tanta, que eu esqueci das necessidades de nosso corpo terreno: não lembrei de respirar. Em determinado momento fui tomado pelo desespero, mas não era tempo suficiente para subir. Foi quando eu a vi, Padre. Sim, era um anjo, me salvando. Disse para eu tomar cuidado, e com um doce beijo me salvou.
- Mas Tales… Não faz sentido! Você sabe bem que os Anjos só descem em ocasiões especiais.
- E o que há de mais especial do que o amor puro, Padre?