
Uma sexta feira como qualquer outra
Outubro 20, 2007Eu queria conversar, e ela me ofereceu seus ouvidos. E era com ela mesmo que eu queria conversar. Contei sobre minha semana, sobre a universidade, minhas tarefas, brigas em casa. Comentamos sobre um amigo nosso com uma conduta suspeita e rimos muito. Nos abraçamos várias vezes, e eu sentia o perfume dela, inconfundível. Ela me ouvia, atenta, sem desviar o olhar, como se aquilo fosse importante para ela.
Horas se passaram naquela tarde de sexta feira, e ela me pediu ajuda com alguns trabalhos. Feliz por servir de algo além de um objeto, ajudei ela, afinal, matemática sempre foi meu forte. Horas se passaram entre números e carinhos joviais, toques delicados nas mãos dela. Sempre muito calma, atenta, seus olhos brilhavam, como se eu fosse especial. Ela sim era especial. Fechamos os livros, era tarde já, e cada um tinha seus afazeres. Nos cumprimentamos com um beijo na bochecha do outro, e partimos. Dois passos e eu viro, chamo ela.
- Vamos sair hoje a noite?
- Claro, me liga. Beijos.
Ela piscou, sorriu e saiu, impecável. Nem cheguei a perceber que em seu cabelo ela carregava o meu prendedor de cabelo. Mas ela carregava também outras coisas minhas.
Cheguei em casa, e não estava no melhor clima do mundo. Mas, estava feliz por estar sozinho. Guardei minha bolsa no meu quarto, e lembrei por que eu adorava morar sozinho: liguei o som, alto. Eu ainda podia ouvir som na altura que desejasse, afinal eram apenas 19h30min, e o som só era proibido depois das 21h. Blues. Ah, como eu adoro blues. Músicas que me afastam das preocupações do dia a dia. Peguei o celular e usei o menu de discagem rápida e liguei para ela. Combinamos de ir ao cinema e depois comer algo. Perfeito.
A caminho do banheiro tirei minha roupa, ainda ao som de uma ótima música. Entrei no banho, lavei meus cabelos escuros, fiz a barba, tomei um banho bem completo, demorado. Olhei no espelho e reparei que meu rosto já não carregava a inexperiência de um jovem de 15 anos, mas também não deixava de omitir minha insegurança. Escovei os dentes, coloquei uma calça jeans preta para combinar com uma camiseta preta e uma camisa também preta. Preto me deixa seguro, me sinto firme, potente, como a noite e a capacidade dela de fazer as coisas sumirem e outras surgirem no lugar. Arrumei meus cabelos, lembrando que ela tinha pedido para mim deixa-los crescer, e eu havia obedecido. Liguei para ela, e ela disse que estava saindo do banho, e estaria pronta em meia hora e no lugar combinado em 45 minutos. Sorri para mim mesmo. Desliguei o som, peguei as chaves do carro e saí.
A cidade parecia fervilhar perto das 21 horas de uma sexta feira de céu limpo. Andei sem rumo alguns minutos, com o braço fora da janela sentindo uma pequena liberdade. Lembrava de meus amigos, dizendo que eu não era normal, aonde já se viu dirigir a menos de 40km/h em uma cidade. Mas eu gostava, admirava a paisagem, e só corria em trechos vazios, fazer curvas apertadas não me animava. O celular vibra no banco ao lado e ela diz que esta a minha espera já.
Encontro ela sentava em uma sorveteria do shopping e fico alguns momentos olhando ela: uma saia preta, longa e de pregas, até os tornozelos acompanhados de uma sandália de salto. Uma blusinha preta, colada. Apenas as cores combinavam na sua roupa, saia, blusa, sandália, cabelos e olhos, mas era o suficiente para lembrar que ela também adorava preto, e ficava linda assim. Me aproximei, cumprimentei-a e quase enlouqueci com seu perfume. Ela percebeu, e ofereceu seu pescoço para mim cheirar.
Assistimos um filme legal até, mas nada me prendia mais a atenção do que sua mão, junto a minha. Eu suava, olhava e suspirava. Ela, ao mesmo tempo fria, demonstrava um sorriso que me cativava, me deixava com vontade de encostar a cabeça no seu ombro, e assim, no meio do filme eu realizei meu desejo. Ela olhou, me abraçou por cima dos ombro e sorriu novamente. Saindo do shopping, ela disse que tinha feito um jantar na casa dela, e queria que eu provasse. Eu fui, fome era o que não me faltava: fome dos seus lábios, sede do seu amor. Chegamos na casa dela, uma bela casa branca, com pouca mobília mas muito bem decorada. Ela fechou a porta, e eu me aproximei bem dela, e disse o que eu havia pensado a tarde toda.
Ela correspondeu.